A Primeira Vez de Alzira

A Primeira Vez de Alzira
Durante alguns anos, Alzira Paixão passou a um ritmo quase diário pela porta do Teatro Nacional

Gonçalo Frota

A Primeira Vez de Alzira levou-a até ao palco

Durante alguns anos, Alzira Paixão passou a um ritmo quase diário pela porta do Teatro Nacional D. Maria II. O irmão era proprietário de um restaurante nas redondezas e Alzira visitava-o com frequência. Mas a sumptuosidade da fachada do Teatro Nacional parecia lembrar-lhe que aquele lugar não era para ela. Para ela que passara tantas noites da sua vida sentada nas plateias do Parque Mayer a procurar descobrir no palco a mesma alegria e vivacidade que carrega na sua vida. Para ela que sempre se definiu como uma pessoa curiosa e ávida de conhecimento – desde que, nos tempos da escola, trocava o lanche que a mãe lhe preparava por uns minutos com os livros escolares dos colegas; enquanto os amigos se lambuzavam com a marmelada que ela levava de casa, Alzira sorvia o que podia de números e letras.

Nascida e criada em Candosa, pequena aldeia cavada na Cordilheira Central portuguesa, a 15 quilómeros de Góis (distrito de Coimbra), num ano que não importa aqui fixar, Alzira Paixão sempre gostou de ouvir contar histórias. Na aldeia, naqueles dias em que se trabalhava de sol a sol e no Inverno as crianças aproveitavam as noites mais longas para fazer bordados e conversarem até altas horas, de vez em quando lá calhava os mais velhos partilharem uns contos – muitas vezes assustadores. Eram histórias do Zé do Telhado, de lobisomens ou de outras crianças possuídas por males para os quais nem havia nome certo. Vezes havia em que, quando estavam no campo, os dentes da miudagem tanto batiam de medo que nem se atreviam a abandonar os palheiros (onde pernoitavam os animais) à luz da lua para atravessar o Rio Ceira e regressar à povoação, não fosse algum ser das sombras fazer das suas.

Alzira chegou a Lisboa com 24 anos, para se casar com um homem que tinha visto uma única vez na sua vida. E logo começou a trabalhar num armazém, um ferro-velho, em que chefiava mulheres vindas de todo o país, as mulheres que a ensinaram a fazer a separação do papel que depois vendiam às fábricas. Às vezes, no meio da papelada, lá apareciam umas notas, uns anéis ou uns relógios que alegravam a jornada de trabalho, mas os dias de Alzira também eram salvos pelos livros que, com frequência, eram vendidos ao armazém em caixotes e ela peneirava para levar uns quantos escolhidos a dedo para casa. Dos livros de História à história da Branca de Neve, não faltavam páginas que a puxassem para a leitura.

Foi atrás das histórias que depois começou a frequentar, sempre que podia, os teatros da cidade, onde chegou a ver Amália Rodrigues, Hermínia Silva ou Raul Solnado. “Tudo o que for para divertir”, diz Alzira, “eu estou lá. Gosto de viver a vida.” E foi o que fez, sobretudo durante o seu segundo casamento, ao lado de um marido que a levava a todo o lado – “Só não me queria levar às matinés das boîtes”, ressalva. Foi com o marido que passou um dia de folga a calcorrear todos os lugares e lugarejos do Bairro Alto, a escutar um concerto personalizado do mítico fadista Fernando Maurício, até que a noite foi avançando e a levou a espantar-se com as raparigas que se iam desfazendo da roupa enquanto dançavam diante de uma plateia de olhares maioritariamente masculinos. Os olhos de Alzira já viram muito.

Hoje, o gosto de Alzira Paixão pelas histórias alastra aos vários momentos do seu dia-a-dia. Reformada, frequentadora da Universidade Sénior e apaixonada pelas aulas de História que a fazem olhar com uma nova atenção para cada parede da cidade de Lisboa, escolhe as igrejas que frequenta em função das histórias – ou melhor, da qualidade narrativa da decifração das parábolas da Bíblia. “Gosto de ir à missa, mas ouvir coisas realistas”, esclarece. Embora com uma outra dimensão, é também a realidade que Alzira gosta de encontrar espelhada nos ecrãs de televisão e nas salas de teatro. Nos últimos tempos, anda a cortar com as telenovelas em casa, para “perder o vício”, porque não gosta de ser tomada pela ansiedade à hora de jantar, de ver o telejornal a desejar que acabe para saciar a sua curiosidade por mais um pequeno avanço numa história mostrada a conta-gotas.

Foi também a realidade, a sua realidade, que Alzira Paixão descobriu no texto de Teatro, a peça de Pascal Rambert com que se estreou, pela mão do Primeira Vez, enquanto espectadora do Teatro Nacional D. Maria II. Nas entrelinhas de um texto que faz do teatro a sua principal matéria, Alzira emocionou-se com o monólogo de Beatriz, a actriz que existe em palco no corpo e na voz de Beatriz Batarda, ouvindo as palavras escritas por Rambert como se fossem suas, escutando o relato inflamado de conflitos familiares como se o autor francês tivesse auscultado a sua biografia. “Aquela história era igual a um certo passado da minha vida e fez-me recordar. Chorei de alegria e de tristeza por representar o meu passado, o da minha mãe e o da minha família.”

Mas são lágrimas que não lhe pesam. “Apesar de não querer voltar atrás, gosto meu passado, não me traz tristeza”, diz. “Com o mal que nos acontece é que aprendemos. Se a vida correr bem nós não aprendemos nada. Aprendemos é com as quedas. Porque se nós vamos atrás da tristeza, vamos indo e caímos no buraco. Com boa disposição, caímos no buraco – porque caem todos lá – mas conseguimos levantar-nos.” É por isso também que Alzira, mulher que gosta de “coisas alegres e interessantes” que possa aprender, se encantou também com a visita aos bastidores do Teatro Nacional, ao perceber como funciona um teatro por detrás das cortinas.

A Primeira Vez de Alzira Paixão no Teatro Nacional D. Maria II foi, na verdade, bastante singular. Moradora da Baixa lisboeta há algumas décadas, sempre com aquele medo de transpor as portas de um teatro que lhe transmitiam uma solenidade pouco sintonizada com a sua vida, começou por conhecer as entranhas do Nacional. Mas logo aconteceu subir ao palco, na sessão de apresentação da temporada 2018/19 para imprensa e convidados, protagonizada por vários espectadores. Foi ela quem, pela primeira vez, falou publicamente deste Primeira Vez. Claro que Alzira já tinha subido a vários palcos enquanto participante em espectáculos do Chapitô e portanto nervos nem vê-los, mas ali o seu papel era o de celebrar a entrada na sala Almeida Garrett de quem, por alguma razão, nunca assistiu a uma peça de teatro naquela que é, enquanto Teatro Nacional, uma sala de todos e para todos.

Agora Alzira tomou-lhe o gosto. E sabe que continuará a voltar em todas as ocasiões que puder. Para revisitar a sua vida através das personagens que à sua frente fizerem uso da palavra e para perceber o quanto de si e do seu percurso haverá sempre a descobrir naqueles seres que a ficção coloca em palco. Porque o teatro, na vida de Alzira Paixão, é uma porta que lhe permite entrar e sair do passado, entrar e sair dos seus dias. Com a certeza de que, ao deixar a sala e avançar para a Praça D. Pedro IV, estará a caminhar com passos que pertencem tanto ao seu passado quanto ao seu presente, até estes a deixarem, por fim, à porta de casa.



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