Os dois irmãos (e a sobrinha)

Os dois irmãos (e a sobrinha)
Não é uma peça de Tchékhov, mas a família Figueiredo encontrou em conjunto o caminho para o teatro

Catarina Homem Marques

A Laura está sentada na mesa da sala a estudar. Vem aí um teste de ciências e tem de saber o mais possível sobre pedras e geologia. “Sou uma aluna média.” Quando diz isto, a mãe, Maria Antónia, começa a rir. “Oh laurinha, que mentira. Ela é muito boa aluna. Está no quadro de excelência.” O tio Gonçalo encolhe os ombros e sorri. Esteve a preparar chá e a procurar chávenas – mudou-se há pouco tempo para ali, ainda se está a habituar aos sítios das coisas. “Voltei à minha terra, é muito bom estar de novo na Parede.”
À primeira vista, pode parecer só mais um final de tarde tranquilo de um núcleo familiar unido, mas é mais do que isso. Quando se fala do regresso, paira sobre os três o peso dessa ausência do tio, que passou dez anos em Angola, voltou para Portugal em 2016 mas só recentemente se conseguiu estabelecer perto das irmãs mais velhas (Maria Antónia tem uma gémea) e da sobrinha. “Regressei há pouco tempo. Ainda estive seis meses em Setúbal… quando cheguei de Luanda os primeiros tempos foram complicados. Mas sou muito próximo das minhas irmãs, mesmo quando estamos longe”, conta Gonçalo.
Talvez por isso, quando tomou conhecimento do PRIMEIRA VEZ percebeu logo que era o programa perfeito para fazer com Maria Antónia e com Laura. O íman, e um íman muito importante nesta história, foi a sobrinha. “Pensei logo nela. A Laura faz teatro uma vez por mês, e queria mesmo levá-la, tanto pelas peças que poderíamos ver como pelas conversas com os actores, as visitas. Queria ver se ela sente mesmo o bichinho.”
Mais uma vez, como tinha feito com a própria mãe, foi a menina de 12 anos a inspirar uma aproximação da família ao teatro. Os pais dos irmãos Figueiredo, os avós de Laura, não tinham o hábito de levar os filhos a espectáculos. “Investiam em tudo o que tivesse a ver com a nossa formação, mas nunca foram virados para esse lado das artes”, explica Gonçalo. Já Maria Antónia, que vê a maternidade como o grande projecto da sua vida apesar da sociedade com a irmã na empresa em que ambas exercem engenharia do ambiente, decidiu fazer o contrário: “É engraçado pensar nisso e na educação que estou agora a dar à Laura. É muito diferente”, diz enquanto recorda a vida dos pais, que se conheceram tarde, em África, já depois de a mãe ter desistido da vida num convento.
Até agora, a experiência de Maria Antónia e Laura era apenas com peças de teatro infantil. Mesmo o financeiro Gonçalo, apesar de assumir uma atracção antiga pelas artes, reconhece que o mais próximo que esteve da vida teatral foi quando fazia encenações a brincar nos escuteiros. “Chegaram a dizer-me que devia tentar seguir a carreira de actor.”
– “Que engraçado, não sabia nada disso”, diz Maria Antónia a rir.
– “É verdade. Só que eu era demasiado conservador quando era jovem.”
– “Estou mesmo surpreendida. Não estava nada à espera de descobrir agora esta faceta do meu irmão.”
Afinal, Laura é mais parecida com o tio do que todos pensavam. Tem uma grande paixão pelos números, mas desde que entrou numa peça na escola que pediu à mãe para ter aulas de representação. “A minha mãe sempre me levou a ver peças e as pessoas deviam ir todas mais ao teatro. Pelo menos uma vez por mês, acho eu.” O convite do tio para irem juntos à estreia do PRIMEIRA VEZ acabou por inspirar o salto que faltava, para atravessarem finalmente as portas de um teatro “a sério”, e logo o Teatro Nacional, do qual ouviam falar apenas à distância e que imaginavam ter o tamanho de um palácio. “Afinal não é nada do tamanho da nossa D. Maria II”, brinca Gonçalo. Mas Laura, que já gosta tanto de teatro como de matemática, nem ficou desiludida: “Achei muito bonito.”
Perante o que aconteceu no palco, com a peça “Teatro”, de Pascal Rambert, cada um dos três reagiu à sua maneira. Laura chegou a dormir um bocado, mas apenas por estar mesmo cansada. E os irmãos, como descobriram durante esta conversa, entenderam o início do espectáculo de forma muito distinta, embora saibam ambos que nunca se vão desentender tanto como os irmãos do texto de Rambert. “Eu nem sei quando é que começou mesmo a peça”, diz Gonçalo divertido. Agora, numa coisa estão todos de acordo: viveram uma noite intensa no teatro. “Demorei muito a adormecer nessa noite.” Concordam também que valeu a pena. E que querem mais. “Havemos de ir mais vezes.”
– “Se me convidares…”, diz Laura depressa, quase por impulso.
– “Podes ter a certeza que sim. Foi mesmo por isto que vos desafiei.”
Encontraram no teatro esse pólo agregador que procuravam, uma forma de se juntarem e repetirem mais vezes aqueles rituais familiares que vão anulando as saudades que duraram alguns anos.
Laura a estudar na mesa da sala. Maria Antónia no sofá, ali perto. Gonçalo a fazer o chá. E mais uma peça de teatro para comentarem, para partilharem, para descobrirem que entenderam isto ou aquilo de maneira diferente. E a partir daí, com as chávenas na mão, desenrolam-se também planos de viagens – “devíamos voltar a Moçambique”, o país onde os pais se conheceram – ou uma ida a Foz Coa agora que Laura está a estudar as gravuras rupestres – “colecciono moedas com os monumentos que visito. Queres vir connosco, tio?”. Aí está o final de tarde familiar e tranquilo, com uma PRIMEIRA VEZ a dar lugar a outras vezes, pelo menos até começar o jogo do Benfica – “que isso o meu irmão não perde.”



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