Desta casa vê-se o mundo

Desta casa vê-se o mundo
José Buginga constrói monumentos de madeira. Agora, já pode esculpir um teatro.

Catarina Homem Marques

Da casa de José Buginga vê-se a Sagrada Família, de Gaudí, mas ele não vive em Barcelona. Na verdade, esta Sagrada Família até está terminada, com todas as torres e a escadaria que tem causado polémica na capital da Catalunha. Aqui, a construção foi pacífica, faseada, dentro dos prazos e sem problemas de licenciamento, seguindo todas as linhas da maqueta do arquitecto.
Da casa de José Buginga vê-se também o Mosteiro da Batalha, a Praça de Touros do Campo Pequeno, e até o Kremlin, como se fosse possível espreitar o coração de Moscovo a partir de uma janela do bairro de Marvila, em Lisboa, que é onde vive há 40 anos. Vendo de fora pode não parecer, mas aquele é que é um apartamento com vistas desafogadas, único, como nenhum outro da vizinhança. Tudo graças às esculturas em madeira que o artesão faz só por amor, para guardar e para, à sua maneira, viajar pelo mundo.
O primeiro monumento que esculpiu em madeira foi mesmo o Kremlin, e esse vai ser sempre especial. “Vi uma fotografia daqueles edifícios ainda em miúdo e engracei mesmo com aquilo. Disse logo: um dia ainda construo isto. Mas depois do 25 de Abril andei anos a ver se encontrava de novo as imagens e nunca consegui.” Foi um romeno que conheceu quando estava a trabalhar numas obras que tornou o sonho possível: “Arranjou as imagens, os planos e os dados todos, e imprimiu tudo nuns papéis para mim.”
Agora o Kremlin está ali na prateleira, construído na oficina caseira que montou na marquise da casa e onde passa muitas horas do seu dia entretido, sobretudo agora que está reformado. Antes, quando passava o dia inteiro a trabalhar fora de casa, só se dedicava a esta paixão à noite, nos tempos livres.
Agora, aos 77 anos, já não acredita que alguma vez vá mesmo à Rússia para conhecer Moscovo. “Para ir, tinha de ir com a minha mulher, e ela já não consegue, já tem dificuldade a deslocar-se.” Mas mesmo que não dê para viajar, Buginga ainda tem energia para continuar com as suas construções – anda de olho na catedral de Santiago de Compostela –, para ter aulas de informática na junta de freguesia – onde aprendeu a conseguir sozinho no computador as imagens dos edifícios que o apaixonam – e até para se juntar ao PRIMEIRA VEZ e ir pela primeira vez ver uma peça ao Teatro Nacional D. Maria II.
“Não me levem a mal. Não vou pelo entusiasmo com a peça. Vou experimentar, mas estou mesmo é curioso para ver a beleza do teatro por dentro.” Para José Buginga, que construiu a porta da própria casa assim que se mudou para ali e que esculpe placas com o símbolo do Benfica para dar alegria à mulher com quem vive há 60 anos, o fascínio está mesmo no edifício que se ergue no topo do Rossio, a Praça D. Pedro IV, e por onde passou tantas vezes sem imaginar que algum dia lá entraria.
“Quando éramos novos víamos teatro de revista, eu e a minha mulher, que agora nem pode ir comigo. Nunca perguntei o preço, pode ser da minha imaginação, mas para nós o teatro era para outra sociedade. Era para as pessoas com posses. Dizia-se que era para as pessoas da alta sociedade, e isso tem um preço. E como eu era da baixa sociedade, era fabril, não era suposto chegar lá, ao palácio…”
Ri-se por chamar palácio ao teatro. Fugiu-lhe a boca para o que sente. Tem muitas memórias do Rossio, embora algumas sejam mais tristes, como o dia em que a irmã de cinco anos morreu ali atropelada. Na verdade, foi por causa da irmã, que tinha de vir para Lisboa fazer um tratamento, que veio com a mãe para o continente quando ainda tinha nove meses.
Vindo da Madeira, nunca perdeu o sotaque que aprendeu com a mãe, mesmo quando levou alguns bofetões na escola por causa dele. “Era malhado, levava muita porrada por causa do sotaque. Falava com as palavras de cá e a pronúncia de lá e ninguém me percebia. Foi assim até que me fartei da escola de tal maneira que nunca mais me consegui interessar.”
Estudou na Casa Pia, e por lá andou até aos 18 anos, mas sempre mais entusiasmado com as oficinas. Ali, aprendeu a ser cesteiro, apesar das perseguições da vigilante Felisberta e dos colegas que o tratavam mal, como um tal de Bota Rota. Sabe fazer vassouras, piaçabas, escovas para fatos, empalhar cadeiras. “Mas depois surgiu a indústria do plástico e ninguém queria cestos para nada. Agora sim, querem as coisas antigas, até nas canções, mas na altura não.”
Depois das cestas, Buginga ainda trabalhou nas obras, foi estivador, a carregar sacas de 80 quilos às costas, “sem me queixar, a acompanhar os mais fortes”, e ofereceu-se como voluntário para “a tropa”, onde ainda passou quatro anos. Nessa altura, finalmente lá lhe valeu o que aprendeu na Casa Pia:
“Não obedecia a tudo. Os outros ofereciam-se para ir dar voltas de carro, e depois percebiam que era para ir com carros de mão limpar a parada. Eu negava-me a tudo. Havia saltos disto e daquilo, eu dava a volta e punha-me do outro lado para parecer que já tinha saltado. Já sabia como era aquilo. Na Casa Pia aprendi bem o que é defesa própria. Agora vejo no computador que aquilo é uma coisa que vem da Tailândia, mas nós lá já ensinávamos artes marciais uns aos outros.”
Só depois disso tudo é que José Buginga chegou mais perto das madeiras, a sua paixão. Passou 23 anos na mesma fábrica, em Cabo Ruivo, na parte da carpintaria, a trabalhar com máquinas, a fazer autocarros. A fábrica já fechou, mas ele ainda passou mais uns anos numa oficina de móveis, já depois de se reformar aos 65 anos. As esculturas é que só fazia nos tempos livres, mas isso aprendeu sozinho, e nunca vendeu nada: “Sempre fiz estas coisas, desde criança. Acho que nasceu comigo.” E quem sabe se agora, depois da tarde que passou no D. Maria II a ver a peça Sopro, não vai mesmo construir um teatro para ter sempre em casa.



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