Quem és tu?

Quem és tu?
Frei Luís de Sousa está no TNDMII para nos confrontar – ou apaziguar – com o cânone.

Catarina Homem Marques

Não é preciso ter ilusões: toda a gente em Portugal sabe quem é o Romeiro muito antes de alguém lhe perguntar “Romeiro, Romeiro, quem és tu?” “Ninguém”, dirá ele. E “Ninguém” poderia também dizer o público em uníssono com o actor, com a personagem, como que a cantar o refrão num concerto de rock, isto mesmo que esse “ninguém” signifique muitas outras coisas.
Afinal, Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett é, para o bem e para o mal, consoante os gostos, o cânone da dramaturgia. Quem não leu o texto na escola, leu pelo menos o resumo da Europa-América, ou ouviu falar dele, desde o tão batido “ninguém” ao momento em que Maria, tão jovem, tão pura, grita: “Minha mãe, meu pai, cobri-me bem estas faces, que morro de vergonha.”
Ele aí está, então. Toda a gente o conhece. Toda a gente ouviu falar dele. Muita gente o leu. Mas será que já o viu em palco? E, se sim, será que o viu num palco que não seja da escola? É com essa referência que afinal nos escapa no teatro que Miguel Loureiro, o encenador do Frei Luís de Sousa em cena no Teatro Nacional D. Maria II, se debate. Esta peça faz parte do património do país, como o Mosteiro dos Jerónimos ou um prato de feijoada transmontana, mas será que ainda é nossa?
“O desafio é conseguires todos os dias resgatar dessa afectação da linguagem as cenas que ensaias. Ainda que seja preciso dizer ‘senhor Manuel de Sousa Coutinho, meu amor, querido marido’ e não sei o quê. E dizê-lo de uma maneira que não pareça o Vítor de Sousa a dizer poesia agarrado a uma hera de plástico [risos]. Para mim, o perigo é esse. As palavras têm de continuar vivas, isso é essencial”, explica Miguel Loureiro na entrevista da folha de sala.
E é assim que este Frei Luís de Sousa nos chega, com o seu texto original, antigo, datado, cheio de romantismo e sebastianismo, mas com uma clareza de palavras suportada sem exageros pelos actores, com uma limpidez de intenções que nos salva o suficiente da carga escolar e de época. “Acho que foi a primeira vez em que percebi mesmo esta peça”, ouve-se alguém dizer à saída da sala. “Nunca me tinha conseguido relacionar com isto de maneira nenhuma.”
Significa então que, perante o clássico, aliviando o peso do nacionalismo – “há coisas que podem puxar-se neste texto que, a meu ver, são perigosas e não são de todo desejáveis” –, e até o peso do pietismo cristão – o que explica que, talvez não por acaso, os quadros na parede das grandes figuras nacionais e religiosas, tão simbólicos na peça, aqui apareçam sem cabeça –, é possível superar o “choque” e chegar a uma nova experiência?
“É como começar por ser martirizado com filmes de Hollywood e depois ir ver filmes japoneses, russos. A princípio custa, porque oferece resistência, mas depois começas a descodificar as linguagens e aquilo torna-se natural, precisa só de outro tipo de apetrechos para nos permitir entrar. Encontras uma forma de te relacionar com este texto, não só com o caricato que fica entre algumas temáticas que não têm peso hoje em dia, como a questão da honra, ou do exacerbamento patriótico, perigoso porque volta a existir em termos políticos, embora de uma forma mais dúbia.”
No fim das contas, abraçado o desafio, o que ali está diante do público é apenas uma família amorosa, bem-intencionada, posta perante uma questão moral dolorosa e a querer fazer a coisa certa. É verdade que, ao contrário de uma novela de prime time ou de uma narrativa a la Netflix, não há um vilão, ninguém faz mal a ninguém e ninguém tem de ser vencido. E que há um pouco mais de bruma do que o normal e uma dose elevada de premonições, e sombras e medos com abundância, já para não falar da peste e da tuberculose. Mas a fábula, essa, afinal ainda pode ser nossa e como nós.

Tenha também a sua Primeira Vez no Teatro Nacional D. Maria II, inscreva-se aqui



Todos os Direitos Reservados ©Primeira Vez 2019
Desenvolvido por TMO Web Creative