As cinquenta sombras de Gorge

As cinquenta sombras de Gorge
Em “A Matança Ritual de Gorge Mastromas” fazer a coisa certa pode não ser a coisa certa. Ou será?

Catarina Homem Marques

Há sempre um lado negro. O cenário e o coro são muito vermelhos, monocromáticos. Mas o que se quer, na verdade, é caminhar pelos muitos tons de cinzento da vida. Pode parecer uma paleta simples de cores, mas é com ela que se desenha o quadro complexo que é “A Matança Ritual de Gorge Mastromas”, a peça agora em estreia no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação de Tiago Guedes.

Comecemos por Gorge (Bruno Nogueira), o protagonista, já que é também com ele que vamos acabar – ou melhor, já que é dele o arco de vida quase completo que se acompanha nesta peça, desde a conceção, literalmente descrita, à velhice.

Gorge, como a maior parte das pessoas, não é especialmente bom nem especialmente mau; às vezes estava triste e às vezes estava alegre; aprendeu umas coisas e não conseguiu aprender outras; e tinha talentos e gostos comuns, como conseguir correr bastante depressa ou saber muito sobre máquinas. Em suma, Gorge não tinha nada de especial. Mas também não deixava de ter.

Quem conta isto tudo é ainda um coro muito omnisciente, mas também muito provocador, ou interpelador, até brincalhão, com um ritmo muito próprio e uma cumplicidade invulgar, enquanto Gorge fica só ali a olhar. “Bondade ou cobardia?”, perguntará muitas vezes o coro, olhos nos olhos com o público. “Bondade ou cobardia?” Afinal, quem é Gorge, e o que o leva a ser mais assim ou mais assado? Ou, afinal, que mundo é este que vai moldando Gorge, seja no dia em que decide ficar do lado de Paul, colega de carteira, depois de este ser sovado no recreio, ou naquela fase em que amou Tânia e a vida era “como uma tigela quente de raios de sol”?

Assim se vai avançando até àquele momento, o momento da escolha, o momento definidor, o momento em que Gorge segue para o centro da cena e encarna uma espécie de “Fausto”, neste caso, um Fausto do capitalismo. Ou algo próximo do dilema de Shostakovich no livro “O Ruído do Tempo”, de Julian Barnes: não será preciso mais força para viver a vida toda com cobardia do que para ser corajoso durante um só momento?

“Ele é uma pessoa mais dada à moralidade, mas parece que sempre que faz a coisa certa, seja por bondade ou cobardia, as coisas correm-lhe horrivelmente mal. E é assim até um certo ponto da vida, em que percebe que para se dar bem só tem de mentir. A partir daí, torna-se completamente amoral. E a vida passa a ser ótima”, explicou Dennis Kelly, o autor do texto, antes da estreia original da peça, que aconteceu em 2013, no Royal Court Theatre, em Londres.

Há sempre este lado nas peças de Kelly, esta capacidade que a sociedade tem para destruir a moral individual, um momento definidor que tende a quebrar os protagonistas, a violência, a mentira, o humor negro ao lado da banalidade das vidas. É assim neste “A Matança Ritual de Gorge Mastromas” como foi assim também em “ADN”, peça do mesmo autor integrada no Festival PANOS, em 2008, na Culturgest, com um grupo de adolescentes a lidarem com o facto de terem empurrado um rapaz para dentro de um buraco. E como também, de certa forma, acontece em “Órfãos”, peça que Tiago Guedes também encenou, em 2017, no Teatro Municipal São Luiz, e expõe a facilidade com que a violência pode entrar pela porta e pelo comportamento de um casal muito decente.

“O Dennis Kelly toca em assuntos que ressoam em mim: a forma como a violência te molda, a maneira como esta sociedade te forma e não te permite níveis de liberdade e felicidade talvez possíveis com outras formas de organização. Ele é muito negro, meio niilista e muito crítico sem ser moralista”, conta Tiago Guedes na folha de sala do espetáculo.

Então, Gorge, “que é uma fraude, tal como a maior parte das pessoas passam a vida a sentir-se uma fraude”, segundo diz Kelly, lá define as suas próprias regras douradas, assim resumidas:

1. Sempre que quiseres alguma coisa, agarra-a;
2. Para conseguir tudo o que queres só precisas de ter vontade absoluta e capacidade de mentir a ti próprio;
3. Nunca penses no resultado, vive cada segundo como se fosse o último e nunca, jamais, te arrependas.

E assim se torna poderoso, e rico, mas também perde, e também não consegue reparar em alguém muito importante que diminui ao seu lado. E lá vai ele caminhando pelas variações de cinzento da vida com o seu coro vermelho sempre a olhá-lo, espectral, sem o julgar, mas deixando o público avaliar se afinal aquilo tudo é revoltante ou nem por isso. “Ainda não se estão a sentir enojados?”



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