Macbeth: a peça que dá azar

Macbeth: a peça que dá azar
Não há muita gente do teatro que se atreva a dizer o nome Macbeth em voz alta.

Gonçalo Frota

Macbeth: a peça que dá azar e pegou fogo ao Nacional

Não há muita gente do teatro que se atreva a dizer o nome Macbeth em voz alta. Dá azar, diz-se. Mas azar dos grandes. Desde mortes acidentais a incêndios devastadores, espere-se tudo quando alguém toma a decisão de levar à cena uma das peças mais emblemáticas escritas por William Shakespeare ou sequer menciona a sua existência sem tomar as devidas cautelas. E é por isso que, em vez de Macbeth, nos corredores dos teatros, em cima das tábuas do palco ou nos camarins, as vozes baixam para um sussurro quando se fala da história do general escocês destruído pela própria ambição e que três bruxas profetizam vir a ascender, mais tarde ou mais cedo, ao trono do país. Ou então, usam-se designações alternativas como “A Escocesa” para evitar que a língua bata na palavra proibida e os azares comecem a saltar por detrás de cada porta.

Como convém quando se trata de maldições, há explicações para todos os gostos. Existem relatos de que na primeiríssima representação da peça, em 1606, o actor a quem cabia o papel de Lady Macbeth terá morrido antes de entrar em palco, tendo o próprio Shakespeare de assumir a personagem na noite de estreia. E há quem defenda que Shakespeare teria, afinal, brincado com o destino ao usar excertos de manuais de feitiçaria no texto. Por essa mesma razão, alguns acreditam que foram as próprias bruxas inglesas a lançar a praga que amaldiçoou Macbeth para toda a eternidade, vingando-se da falta de pudor do bardo ao servir-se indevidamente dos seus encantamentos. Certo é que Jaime I, rei de Inglaterra entre 1603 e 1625, cortou provisoriamente o mal pela raiz e proibiu a peça de ser representada durante um período de cinco anos.

O mais trágico de uma longa lista de acidentes – que incluem espadas falsas substituídas por verdadeiras e actores a serem realmente mortos na batalha final, ferimentos de toda a espécie e feitio, mas também a muito peculiar maldição de que se queixa a crítica Jane Howard por não gostar daquela que é a peça mais representada de Shakespeare na Austrália e à qual tem, por isso, de regressar com frequência – terá ocorrido em Nova Iorque, em 1849. À porta da Astor Opera House, as equipas de duas produções rivais de Macbeth resolveram trocar a discussão dos méritos artísticos por uma cena de pancadaria tão violenta que a contagem final, sem ficção à mistura, terminou num saldo de 22 mortes.

O avolumar de histórias garantiu que, em 1964, na altura em que o Teatro Nacional D. Maria II avançou com a sua produção de Macbeth, a ser representada pelo elenco da residente Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, ninguém ignorasse que a maldição poderia transpor as portas da sala lisboeta juntamente com o texto de Shakespeare. “Esse assunto foi muito falado logo desde que começámos os ensaios”, recorda Carlos Queiroz, actor que se encontrava no segundo ano do Conservatório de Teatro e foi chamado a juntar-se ao elenco da peça. Lembra-se ainda hoje que o “encenador inglês que veio a Portugal dirigir [Michael Benthall], tinha encenado a mesma produção no Japão e, segundo se dizia, um dos actores ficara gravemente ferido na batalha final”.

Carlos Queiroz acabaria por cumprir quase toda a sua carreira em Inglaterra, onde esteve 35 anos. No país de Shakespeare, diz, a superstição no ambiente teatral impede mesmo que o título de Macbeth seja nomeado e todos preferem falar de “a escocesa” a correr o risco de descarrilar a sua carreira graças a um percalço perfeitamente evitável. Mas foi em Portugal que aconteceu a sua história ligada à maldição. Coubera-lhe em sorte o papel de Fleance, filho de Banquo, que escapa à morte que Macbeth lhe reservara. Depois de mês e meio de ensaios num entusiasmo incontido, a carreira da peça no Nacional tinha arrancado há pouco mais de uma semana quando, na noite de 2 de Dezembro de 1964, às quatro da madrugada o Teatro Nacional foi iluminado pelas chamas.

O jovem actor tinha regressado há escassas horas à casa onde vivia com os pais, na Amadora, depois de mais uma representação, quando foi acordado com a notícia do incêndio. “Lembro-me que o meu pai, naquela altura, tinha por hábito deitar-se na cama com um daqueles pequenos rádios junto à orelha, para ouvir música, notícias, etc. Foi ele quem me acordou cerca das quatro e meia com a notícia de que o Teatro Nacional estava a arder.” De pronto, pôs-se a caminho de Lisboa e, à chegada, depois de contornar o Rossio respeitando o alargado perímetro de segurança, conseguiu ver as chamas que saíam do camarim, no último andar, que partilhava com outros jovens actores. Aos poucos, as pessoas do teatro que ali se foram concentrando conseguiram chegar à entrada principal e ajudar bombeiros formando com alguns populares uma corrente que salvou parte da biblioteca e do espólio do Nacional.

“Foi um choque muito grande e ficou-me gravado na memória, como é evidente”, confessa. “De tal maneira que ainda hoje guardo o meu último ordenado do Teatro Nacional, que estava guardado no cofre, como os ordenados de toda a gente. Ainda tenho aquele envelope azul clarinho, com as moedas no interior, aquilo que me pagavam semanalmente por entrar naquela produção. Guardei como memória do incêndio e ainda cheira ao fumo.”

O episódio não passou ao lado de Miguel Fragata e Inês Barahona, dupla que foi convidada, em 2016, a criar uma visita guiada no espaço do Teatro Nacional D. Maria II. Ao pesquisarem a história da sala, os olhos dos dois pararam nesse acontecimento “transformador até da própria arquitectura do espaço e que marca uma paragem muito grande na existência do teatro [a reabertura aconteceu em 1978]”, diz-nos Miguel Fragata. A partir das pistas do incêndio, Miguel e Inês foram pesquisando a maldição espalhada pela cultura teatral de todo o mundo e perceberam que podiam verter tudo isso para aquilo a que decidiram chamar A Visita Escocesa.

Como o próprio nome indica, era uma visita tomada pela peça de Shakespeare. “Quisemos estabelecer um jogo entre o nosso desinteresse por visitas guiadas e pegar nisso de uma forma irónica, fazendo um jogo em que os artistas não queriam fazer a visita guiada mas sim apresentar aquela peça no teatro, às escondidas. E a razão pela qual a peça não era desejada era precisamente devido à maldição, porque qualquer coisa terrível podia acontecer.”

Durante A Visita Escocesa, como se poe imaginar, vários acontecimentos mais ou menos macabros iam tendo lugar, enquanto excertos de Macbeth iam empurrando a história para um desfecho que terminava com o alarme de incêndio a soar em toda a sua aflição.

Por isso, não se esqueça: na sua próxima visita ao Teatro Nacional D. Maria II, evite dizer Macbeth em voz alta. Para sua segurança e daqueles que o acompanham, diga antes “a peça escocesa”. O teatro agradece.

Imagens do catálogo da Biblioteca|Arquivo do TNDMII



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