A curiosidade nunca se acaba

A curiosidade nunca se acaba
Lúcia aprendeu com o tio-avô, Egas Moniz, a amar o belo e a descoberta: e claro que chegou ao teatro

Catarina Homem Marques

Primeiro, é preciso fazer uma enumeração – Lúcia dá aulas de piano, de música e de inglês na Academia Sénior das Avenidas Novas; além disso, tem aulas semanais de acordeão e de teatro; além disso, é investigadora na Faculdade de Letras, no Centro de Estudos Anglísticos, e até ao fim do ano já tem marcados três congressos. Depois, há que olhar para os números: Lúcia tem 83 anos. E por fim, chegar à constatação improvável: “Agora ando muito parada para o meu gosto. Estou a fazer menos coisas do que fazia. E depois começo a sentir-me desequilibrada.”
Por ter esta energia imparável e este espírito inquieto, Lúcia conseguiu ainda juntar à sua agenda as actividades do PRIMEIRA VEZ. Já foi ao Teatro Nacional D. Maria II duas vezes com o projecto, primeiro um pouco a medo de achar a encenação de “Frei Luís de Sousa” uma coisa “demasiado moderna”, mas curiosa com a ideia de, além de ver as peças, ainda passear pelos bastidores do teatro e conversar com os actores. Afinal, é assim desde pequena: sempre pronta para conhecer novas experiências, o que explica as muitas voltas que foi dando à sua vida.
“O meu tio-avô era médico, o meu tio era médico, os meus dois primos são médicos... tínhamos muita gente da família em Medicina”, recorda Lúcia, que cresceu entre Lisboa e o Estoril. Ou seja, depois de já ter vencido a batalha com o pai para ir para o Liceu em vez de estudar em casa, como era mais comum para as raparigas, foi natural para Lúcia comunicar à família que queria ser médica também. “Ninguém gostou muito da ideia, uma mulher médica era uma ideia que na altura ainda chocava um bocado as pessoas, mas felizmente ninguém me proibiu.”
Na verdade, acabou por nem gostar do curso, e ao fim de três anos decidiu mudar. Mas desistir é que nunca. A mãe, apesar de ser dona de casa, “porque na altura dela ainda havia menos opções para as mulheres”, sempre quis que a filha estudasse e se tornasse o mais independente possível. E então, Lúcia, a irrequieta, mudou para Direito. E de novo o mesmo problema: “Era boa aluna, mas continuei a não gostar.”
Acabou por conhecer o futuro marido na faculdade de Direito, e ele, que já era advogado, apresentou-lhe duas saídas para aquela insatisfação: casarem-se logo e ela desistir do curso, ou ela continuar no curso e não se casarem de todo. “Resolvi casar e acabar com o problema do curso. Só que eu ainda hoje detesto panelas e coisas domésticas, e não tinha feitio nenhum para dona de casa.” Adaptou-se a essa nova fase à sua maneira: “Fiz todos os cursos que havia para aí em institutos de línguas, e o meu marido não se ralava nada com isso. Viajámos muito, fizemos cruzeiros, e ele era uma pessoa tão divertida. Aproveitámos todos os momentos.”
E enfim, aos 61 anos, “com esta curiosidade pelo mundo que não consigo perder”, Lúcia voltou a sentir o apelo de aprender, e percebeu enfim qual era o seu caminho: Línguas e Literaturas Modernas, na vertente de Inglês e Alemão. “Foi muito engraçado, adorei finalmente um curso, e os meus colegas podiam todos ser meus netos, apesar de ainda hoje continuar amiga de muitos deles.” Seguiu a especialização em Tradução, por achar que já era demasiado tarde para se dedicar à Educação, e a partir daí foi sendo incentivada pelos professores a fazer mestrado, tese e, por um fio, quase se lançava ao doutoramento: “Acabei por dizer que não, e não me arrependo. Eram mais quatro anos de estudos, e o meu marido acabou por morrer cinco anos depois. Foram anos em que pude estar mais tempo com ele.”
Mais uma volta na vida, mais uma adaptação. “Depois de o meu marido morrer, aquilo de estar ali sem fazer nada não dava para mim.” Claro, Lúcia quis estudar mais, descobrir mais coisas, e ainda fez uma pós-graduação em Interartes antes de descobrir a Universidade Sénior que acabou por trazê-la até ao PRIMEIRA VEZ e, com felicidade, de volta a uma paixão que na verdade só foi adiando – o ensino. Agora que dá aulas de música, por ter feito conservatório quando era nova, e de inglês, já não há como negar: “Adoro dar aulas, apesar do trabalho que me dá. Nitidamente, era a minha vocação.”
É-lhe fácil, quando olha para trás, perceber de onde lhe vem este amor pelo conhecimento, pelas linguagens artísticas, e até pelo palco, ainda que só agora tenha começado a ter aulas de teatro. “O meu tio-avô é o professor Egas Moniz. Quando o meu avô morreu muito cedo num desastre de automóvel, foi ele que tomou a cargo a educação das sobrinhas, a minha mãe e a minha tia. E como acabou por nunca ter netos, eu e os meus primos éramos de facto os netos dele. Foi na nossa vida uma figura muito interessante: era muito culto, muito dedicado às artes, e adorava ensinar-nos coisas, conversar connosco. Sempre que nos reunia, toda a gente podia falar, ter opinião. Olhou por nós até morrer, e nisso tenho a certeza de que fomos uma família muito privilegiada.”
Além dos jantares com mais de 20 pessoas todos as quintas-feiras, do tempo que ele arranjava para ir ver todos os recitais de piano da afilhada pianista, das histórias sobre dar consultas a Sá-Carneiro ou Fernando Pessoa, Lúcia recorda o senhor bondoso que criou a mãe e a tia de Lúcia para serem mulheres avançadas para o seu tempo, apesar de todas as limitações. “Depois, foram sempre elas que, ao longo da nossa vida, nunca nos deixaram desistir, a mim e às minhas primas mulheres, de aproveitar todas as oportunidades para aprender, para olharmos por nós.” E é isso que Lúcia, aos 83 anos, continua a fazer todos os dias.

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