Espectador, criador, director

Espectador, criador, director
Tiago Rodrigues dirige hoje o D. Maria II. Mas antes do cargo já conhecia bem a plateia e o palco

Gonçalo Frota

O espectador
Há pouco mais de meio ano, Tiago Rodrigues foi conduzido pela mão de Cláudia Jardim pelos bastidores do Teatro Nacional D. Maria II, até se ver diante do figurino da sua primeira peça de teatro enquanto actor. A menos que a memória esteja a trair o actual director do Teatro Nacional, dentro daquela roupa Tiago transformava-se em D. João II, uma das personagens que o professor Jorge Pité tinha convocado para um texto lavrado pela sua mão, Esperem que Eu Volte, que o próprio encenou à frente do Teatradançando, na Escola Secundária da Amadora, no início dos anos 90. Cláudia Jardim, actriz do Teatro Praga, fizera audição para esse grupo de teatro escolar no mesmo dia que Tiago Rodrigues e estreara-se também nesse preciso espectáculo. Muitos espectáculos volvidos nas vidas de ambos, foi ao Teatradançando que os Praga recorreram para ajudar a compor o guarda-roupa da sua revisão da história da dramaturgia nacional em Worst of, peça apresentada no D. Maria – daí a tal visita aos bastidores que se tornaria uma espantosa viagem no tempo.
Uma viagem no tempo, mais concretamente até esse curto período, algures entre os 13 e os 14 anos, em que a vida do adolescente Tiago Rodrigues foi seriamente chocalhada na sua ligação ao teatro e à palavra. Primeiro, porque foi esse o ano em que se juntou ao grupo de teatro dirigido por Jorge Pité, “aquele professor herói, absolutamente excepcional, irreverente, divertidíssimo”, lembra, aquele estimulador de futuros que existe sempre em qualquer escola. Mas foi também nessa altura que assinou o seu primeiro texto no suplemento literário juvenil DNJovem, do Diário de Notícias (“que lia avidamente”), quando atingiu a idade mínima (13 anos) para se poder aventurar nessas andanças. “Foi o primeiro texto que enviei e foi publicado. E, portanto, foi um acontecimento para mim”, admite.
No mesmo intervalo temporal em que se deram esses dois momentos que – sabemo-lo agora – eram dois faróis a apontar claramente para os seus dias vindouros enquanto homem do teatro (dramaturgo, actor, encenador), Tiago entrou pela primeira vez no Teatro Nacional D. Maria II. Foi em 1991, para assistir à peça de Filipe La Féria Passa por Mim no Rossio, um estrondoso êxito à época, mais de um ano em cartaz. Talvez tenha sido “à boleia desse fenómeno sociológico” que se dirigiu à sala lisboeta, possivelmente na companhia de colegas do Teatradançando, para se deixar impressionar sobretudo pelos actores da peça. Diz ele: “Lembro-me claramente da Eunice Muñoz, no fim do espectáculo, num quadro em que fazia de Ivone Silva, uma coisa absolutamente incrível. E lembro-me de ter ficado fascinado pelo Varela Silva.”
Essa ideia de fenómeno, de um espectáculo que salta da sala de teatro e invade as ruas, salta de boca em boca e contagia as conversas em redor de uma mesa de café ou de um jantar de família, é algo que Tiago Rodrigues carrega ainda hoje consigo, tentando replicar na vida do Teatro Nacional D. Maria II. “Naquela altura, falava-se imenso do Passa por Mim no Rossio e, portanto, não ver aquele espectáculo teria sido uma falha.” Ele não falhou. E hoje tenta que os espectadores se aproximem da programação do D. Maria II com essa mesma urgência e esse desejo de que as suas vidas sejam invadidas pelo teatro.
O criador
Quando Tiago Rodrigues entrou no Teatro Nacional D. Maria II, em 2010, para trabalhar em Se Uma Janela se Abrisse, essa seria uma de várias “primeiras vezes” que então ditavam um ponto de viragem no seu percurso artístico: estreava-se como criador no Nacional, assinava o primeiro espectáculo de que sentia poder reclamar-se autor por inteiro, assistia sem filtros à mecânica de uma sala daquela envergardura e descobria ao vivo o trabalho de um ponto – no caso, de Cristina Vidal, a ponto que se tornaria a protagonista de uma sua posterior criação, Sopro.
Depois de, em 2008, Tiago ter criado para o Festival Alkantara Yesterday’s Man, em colaboração com o dramaturgo libanês Rabih Mroué, e de ter coordenado nos anos anteriores o programa Urgências no Teatro Maria Matos, a nomeação de Diogo Infante para a direcção do Teatro Nacional D. Maria II (ele que tinha estado três anos no Maria Matos) abriu as portas para que um novo convite do Alkantara encontrasse no Nacional a escolha ideal para a apresentação de um novo e ambicioso espectáculo. Se Uma Janela se Abrisse sobrepunha as vozes de quatro actores em cena – Tónan Quito, Cláudia Gaiolas, Paula Diogo e Tiago Rodrigues – às imagens reais de um noticiário da RTP, aplicando camadas ficcionais a uma matéria-prima quotidiana. E se expunha de forma clara esse interesse assumido de Rodrigues pela zona de trânsito entre a fantasia e a realidade, estimulava também a reflexão sobre a construção de narrativas que o jornalismo propõe a partir da vida no mundo e terminava com um monólogo escrito para um pivot, João Adelino Faria – que, nesse trecho final, se mantinha em silêncio, olhando para a câmara, enquanto Tiago, em palco, se assumia como a sua voz interior, fabricando os seus pensamentos.
Nem mesmo as exigências técnicas da peça haviam de fazer disparar a ansiedade de Tiago Rodrigues pelo facto de estar a estrear-se no Teatro Nacional. “Acho que estar a fazer o espectáculo na sala-estúdio e no âmbito do Festival Alkantara aproximou-me da minha escala natural”, recorda hoje. Mas também porque, desde logo, sentiu que a equipa técnica que o acompanhava discutia as suas opções mas estava sempre disponível para apoiar quaisquer que fossem as suas decisões finais. “Algumas decisões foram muito tardias, o espectáculo foi terminado muito perto da estreia e havia uma margem de experiência muito grande durante todo o processo”, diz. “E, portanto, era difícil para aquela equipa do teatro, que ainda por cima não conhecia bem o meu trabalho, ter a segurança de saber o que iria ser a peça.”
Essa disponibilidade para seguir um criador é uma qualidade que Tiago afirma reconhecer, ainda hoje, como parte de uma “cultura muito instalada de estar ao serviço da imaginação do artista”. “Por isso, apesar de ter de ser bastante discutido, fiz o espectáculo exactamente como queria fazer.” Na verdade, esse é um momento tão feliz no seu percurso que equaciona voltar a visitá-lo em 2020, quando passarem dez anos sobre a estreia da versão original. “Gostava de voltar àquele dispositivo, àquela peça, ao João Adelino Faria e ao jornalismo”, confessa. “Temos poucas oportunidades de voltar ao mesmo lugar, muito tempo depois.”
E como aquela é uma criação marcada pelo tempo da sua gestação – um tempo em que “Marcelo Rebelo de Sousa era comentador político, o primeiro-ministro era José Sócrates, e em que um avião da Air France saiu do Rio de Janeiro e se despenhou” –, Tiago gostaria de voltar a desenterrar essa cápsula do tempo e compará-la com o presente. Fica a promessa de que estará especialmente atento ao telejornal de 23 de Maio de 2020, quando se cumprirem dez anos sobre o noticiário que esteve na origem da peça, “a fazer figas para que seja o João Adelino Faria a apresentá-lo”.
O director
No seu primeiro dia de trabalho enquanto director artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues faltou. Calma, não foi falha sua. Acontece que entrou em funções a 1 de Janeiro de 2015, feriado, e como o primeiro dia útil era sexta-feira, dia 2, o Ministério da Cultura pediu-lhe que se apresentasse ao serviço a 5 de Janeiro, no início da semana seguinte. Só que essa mesma informação não foi comunicada à equipa do teatro, pelo que, na sexta-feira, dia 2, os trabalhadores da casa esperaram em vão pela chegada e pela apresentação do novo director. “Foi um início auspicioso”, ri-se Tiago Rodrigues. “Cheguei logo três dias atrasado ao cargo.” Daí que, desde o primeiro dia, a sua entrada em cena tenha sido recebida com a boa disposição que se delega numa piada certeira.
Entre a sua nomeação um par de meses antes e a entrada em funções, Tiago Rodrigues dirigiu-se ao Teatro Nacional D. Maria II apenas numa ocasião, para se encontrar com o seu antecessor, João Mota, a fim de se dar a passagem de pasta oficial – as suas dúvidas e questões de um lado, tudo aquilo de que o actual director da Comuna – Teatro de Pesquisa se lembrou de lhe contar do outro, numa partilha de informação essencial para quem, como era o seu caso, nunca tinha dirigido um teatro até então. Antes e depois desse momento, Rodrigues quis manter-se afastado, para não “ensombrar os cerca de dois meses que deveriam ser de despedida e de vida plena do João Mota enquanto director da casa”, e por entender que “é importante poder cumprir esse final de ciclo com a equipa com a qual se vive de uma forma muito intensa, muito social e muito familiar nesta casa”.
No dia 5, portanto, quando pela primeira vez transpôs a porta do Teatro Nacional D. Maria II enquanto director artístico em funções, Tiago Rodrigues iniciou um “curso intensivo” nesta prática de dirigir um teatro, com a consciência de que a sua inexperiência talvez lhe desse “umas vidas a mais do que os outros jogadores”. “Era como ter aulas de condução num Bentley ou num Ferrari – desde a primeira hora, foi logo a grande velocidade e isso exigiu bastante cautela no início.” Não quis, por isso, apresentar-se com qualquer modelo sonhado do que deveria ser aquele teatro, preferindo passar os primeiros tempos a ouvir, “até finalmente ganhar o direito de opinar e decidir”. “Sabia que os primeiros tempos seriam tempos de observação de como o teatro funciona”, diz. “Intuía que iria querer fazer alterações, mas num primeiro momento queria escutar e observar, queria conhecer as pessoas, perceber o que faziam, como a equipa funcionava, ouvi-las quanto àquilo que achavam fundamental continuar a ser feito e aquilo que achavam fundamental alterar ou melhorar.”
Sabendo que desde a sua reabertura, em 1978, o TNDMII tinha recebido 17 directores artísticos – com um tempo de permanência médio inferior aos três anos de um mandato –, escusou-se também a discursar à equipa prometendo grandes mudanças e um futuro radioso e de grande afirmação da instituição a nível nacional e internacional. O tempo havia de lhe demonstrar que essa elevada rotatividade de titulares do cargo treinara a equipa para “uma grande abertura à mudança e a ideias novas na programação, no funcionamento e na identidade do teatro”, mas naquele primeiro dia Tiago Rodrigues quis antes começar a conhecer as pessoas e agendar conversas com todos aqueles que lideravam equipas – da produção e da direcção de cena, às relações externas e ao departamento financeiro.
E ainda nesse dia teve a primeira conversa com uma artista, na vizinha Confeitaria Nacional, com vista à programação do D. Maria II sob a sua alçada. Ao final da tarde, encontrou-se com a coreógrafa Marlene Monteiro Freitas, sugerindo-lhe que “ela devia fazer uma tragédia grega”. “Ela ficou de pensar.” Passados dois anos, estreou no teatro a peça Bacantes – Prelúdio para Uma Purga, o mesmo espectáculo que apresentou antes de receber o Leão de Prata da Bienal de Veneza.



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