Um escuteiro descobre o teatro

Um escuteiro descobre o teatro
Diogo cresceu com o escutismo e será um arquitecto seduzido pela ligação dos edifícios à História

Gonçalo Frota

Nos escuteiros, entre muitas outras coisas, acredita Diogo Batista, aprende-se a errar. A ver os outros errar, mas também a falhar em nome próprio e a perceber que nada há de condenável nisso. Pelo contrário, para o “caminheiro” – último degrau previsto para o percurso escutista – essa experiência em que os erros acontecem à frente de todos e são aprendizagem colectiva, essa abertura para arriscar naquilo que é novo sem medo do insucesso, esse autoconhecimento que resulta de perceber que se é bom numas coisas e menos bom noutras, nada tem de dramático. É sim, afinal, uma preparação para a vida adulta, para saber lidar com as frustrações e os fracassos sem ver neles qualquer fatalismo, mas sobretudo para pensar o mundo a partir de uma perspectiva comunitária e solidária.

Talvez por isso o contacto com o teatro proporcionado pelo Primeira Vez tenha caído tão bem junto de Diogo e de outros membros do Clã Universitário de Lisboa – o grupo formado por aqueles que, longe da sua terra e os dos seus agrupamentos originais, se reuniram em torno de uma outra maneira de se manterem activos na sua prática escutista. Afinal, também o teatro existe nesse mundo de que o erro faz parte e é integrado, e sempre que acontece deve ser assumido por todos, actores e equipa técnica, solidariamente. Essa realidade teatral era algo que Diogo praticamente desconhecia. Escarafunchando no seu passado, percebe que a sua experiência com o teatro não ia além da excursão familiar para assistir, em Lisboa, ao musical "Música no Coração", na encenação de Filipe La Féria, de um par de viagens até à capital, com a escola, para assistir a peças de Gil Vicente que faziam parte do currículo lectivo, e de umas poucas peças (produções amadoras de Leiria) em que participava um amigo de adolescência.

Esse “chamamento”, de se dirigir com regularidade a uma sala de teatro, nunca o tinha sentido antes de acompanhar alguns colegas a uma sessão de "A Matança Ritual de Gorge Mastromas", no final da temporada 2018/19. Talvez porque na sua família não havia essa tradição. Mas também não havia, por outro lado, grandes antecedentes familiares – apenas “uma prima”, reconhece – ligados ao escutismo. Ainda assim, seguindo a vontade dos seus pais de que integrasse o movimento, juntou-se aos escuteiros de Leiria aos seis anos. “Lembro-me de passar perto da sede em Leiria e ver crianças a brincar ao lado da igreja”, recorda, antes ainda de começar a traçar o seu percurso. “A nossa sede é numa igreja, eu vivo muito perto e quando passava lá via as crianças a brincar antes ou depois dos escuteiros.” Começou por brincar com as outras crianças e quando deu por isso já estava lá dentro. E nunca mais quis sair.
Aos seis anos, o escutismo era sobretudo uma ideia de brincadeira. Mas, aos poucos, foi-se tornando claro que ali “desenvolvia aptidões que não conseguia desenvolver em nenhum outro lado – em nenhum desporto, em nenhum grupo”. O escutismo deu-lhe um outro contacto com a comunidade e com a natureza – fê-lo sentir-se menos estranho na relação com ambos. Por outro lado, as amizades que ali nasceram e garantiram que Diogo não pensava em afastar-se foram, na verdade, alimentadas por um crescimento conjunto, feito de ajuda mútua e de um caminho para a idade adulta que não se faz sozinho ou desemparado. Tanto assim que, pensando nas várias “experiências únicas” por que foi passando – o treino no desenvolvimento de projectos, no planeamento e na organização, o trabalho em grupo, os acampamentos, as construções em madeira, os longos raids no mato, a canoagem, a espeleologia –, Diogo brinca ao comparar: “O escutismo é quase uma droga – queremos mais, mais e mais.”

E Diogo tem querido sempre mais. Aos 21 anos, no último estádio da sua caminhada de escuteiro, é também a este percurso que deve as suas viagens até ao Japão, à Holanda e à Polónia, para encontros internacionais de escuteiros ou para participar nas Jornadas Mundiais da Juventude. São momentos, reconhece, importantes pela troca de experiências e pelo contacto com histórias diferentes e formas distintas de entender e praticar os mandamentos de Baden Powell. E que o ajudaram a traçar o rumo final desta caminhada – “que é só o início de uma muito maior, a vida pós-partida”, diz.

Diogo Batista acredita que nunca se deixa verdadeiramente de ser escuteiro e sabe que continuará a carregar essa experiência de vida no futuro enquanto arquitecto especializado em interiores e reabilitação do edificado, para o qual se vem preparando desde 2016. Foi para aí que os estudos na Faculdade de Arquitectura o guiaram. Até porque foi essa área em específico que lhe deu uma maior segurança em relação à sua escolha académica, percebendo o quanto pulsa em si o “interesse pelos edifícios antigos e pela forma como os podemos integrar na cidade hoje em dia, principalmente na sua História”.

História, dessa que se escreve com um H maiúsculo, é algo que não falta ao Teatro Nacional D. Maria II, como bem sabemos. Daí que a primeira visita de Diogo ao edifício e à Sala Garrett, precisamente para assistir à "Matança Ritual de Gorge Mastromas", tenha resultado num profundo encantamento. Calhou até que, devido a um ligeiro atraso da sua parte na chegada ao teatro, tivesse ficado separado do restanto grupo do Clã Universitário de Lisboa que assistiu à sessão. Foi uma sorte, reconhece agora. Enquanto os amigos foram dirigidos para a plateia, Diogo foi levado para o primeiro balcão. “Estava mais alto, a ver coisas que não se vê tão bem lá em baixo, com uma perspectiva completamente diferente”, regozija-se. “Como estava sozinho, com muito mais espaço, podia olhar. E é certo que olhei para tudo quanto podia.”

Até mesmo no encontro com os actores e o encenador que se seguiu ao espectáculo, promovido também pelo Primeira Vez, Diogo admite que dividiu a sua atenção entre as palavras que ouvia aos protagonistas do espectáculo e a “contemplação daquele lindíssimo teatro”. Mas, mesmo siderado com o edifício, não deixou de registar aquela “proximidade muito maior com quem faz a peça”, reveladora “das dificuldades, dos momentos de alegria” e do imenso trabalho que está por detrás da preparação e das várias fases de construção de uma peça.

Ao sair do D. Maria II, para Diogo Batista foi-se tornando claro o quanto um teatro como este se relaciona com a cidade. Mas também, através dos vários espectáculos apresentados ao longo dos anos, o quanto vai acompanhando cada momento histórico e cada enquadramento da sociedade em que estamos inseridos. O teatro, parece agora evidente, é tanto documento quanto fabricante de um tempo. É tanto testemunha quanto actor de cada período.

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