Antígona #presente

Antígona #presente
A “Antígona” de Mónica Garnel é luta, rebeldia, desobediência – dela e de todas.

Catarina Homem Marques

Quando um pássaro entra dentro de casa, há uma morte que se anuncia. A superstição é antiga e, se não tem fundamento científico, tem sempre poder narrativo – faz com que o piar de uma águia atrás de uma cortina de cena, a presença imponente de uma águia em palco, o voo de uma águia dentro de uma sala de teatro estabeleçam um tom. Vem aí Antígona, e já se sabe para onde Antígona caminha. Mas há mais do que uma maneira de bater as asas até lá.

“Lembra-te que nascemos mulheres.” Podia ser só uma frase, entre muitas frases, do texto clássico de Sófocles que Mónica Garnel respeitou na encenação de “Antígona”, a peça que abre a nova temporada do Teatro Nacional D. Maria II, em cena até 6 de Outubro. Mas há certas formas de dizer certas frases e de as deixar a pairar enquanto intenção: é Ismena que tenta recordar a irmã da sua condição de nascença, das limitações do género, das incapacidades que as limitam, só para deixar ainda mais claro que Antígona – condenada pelo próprio nome a estar etimologicamente do contra – não se irá deixar prender por isso na hora de desafiar o tio, Creonte, perante a ordem de não se poder enterrar o corpo do seu irmão, Polinices.

“She's over-bored and self-assured”, diria Kurt Cobain em “Smells Like Teen Spirit”, música de rebeldia adolescente que se impõe como leitmotiv desde o início da encenação, numa versão original de Vitória, que se junta no palco não só à juventude da protagonista (a peça pode ter mais de 2400 anos, mas Antígona não teria mais de 15), como à juventude dos seis estagiários do Teatro Nacional que assumem a peça ao lado do elenco fixo. Mas ela não está só “over-bored” (entediada) ou “self-assured”(confiante): está devastada, está indignada, está cansada de injustiças e cheia de raiva, e está disponível para o sacrifício. Antígona, em suma, está farta e vai à luta.

Aí está outra leitura possível para a ave: cansada de estar presa, propõe-se a voar. E aquilo que Antígona faz ao garantir os rituais funerários ao irmão, a um corpo que, aliás, estava largado ao apetite das aves necrófilas (outro simbolismo), e depois ao assumir o delito por inteiro, é um acto de desobediência civil. É, claro, um gesto de amor e de ave-mãe que cuida do seu ninho, de mulher que honra os homens da sua família em detrimento de si própria, o que faz com que dificilmente a peça de Sófocles possa ser vista tout court como feminista (isso e o facto de Antígona não agir directamente em nome de uma luta pela igualdade) – mas é também um acto de resistência, um gesto político, uma forma de superação do papel que a sociedade lhe atribui, e é isso que permite que esta Antígona, esta sim, feita aqui e agora, seja feminista.

“É triste que esta questão continue actual, mas eu vejo aqui uma possibilidade mais de insistir nesta reflexão, neste questionamento do lugar da mulher. E além do próprio texto e das questões que a palavra levanta, a peça também me deu a possibilidade de pensar os corpos: não só o corpo da transgressora Antígona, mas de todas as outras personagens. Para mim, a Ismena ou a Eurídice são tão importantes como a Antígona...”, explica Mónica Garnel na entrevista dada para a Folha de Sala do espectáculo.

Ela não nasceu para odiar, diz-nos Antígona. Nasceu para amar. Mas, ao mesmo tempo, Creonte afirma que, enquanto for vivo, “não há-de ser uma mulher a dar as ordens”, e é preciso fazer alguma coisa perante a injustiça, perante a falta de clarividência e visão (algo que, mais uma vez, as aves de rapina têm de sobra) de quem está no lugar do poder e do privilégio. Antígona, talvez capaz de ver mais longe, talvez já de olhos postos naquele futuro/presente que é reflectido pelas roupas, pelas danças e pelos cenários em palco, faz alguma coisa. E paga o preço por isso. Ela como outras mulheres por quem, a determinado ponto, o coro clama: tão famosas como Julieta, Malala ou Marielle, mas também tão anónimas para o curso da História e tão vítimas do desequilíbrio de forças no mundo como as 21 mulheres que já morreram num contexto de violência doméstica desde o início do ano de 2019 em Portugal. A mais recente chamava-se Gabriela.


Sessões Primeira Vez no espectáculo de abertura da temporada do Teatro Nacional D. Maria II:
22 de setembro, domingo, 16h00
25 de setembro, 4ª feira, 19h00



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